Como Surgiu o Dinheiro?

Você sabe o que maços de cigarro, conchas do mar e vacas têm em comum? Todos já foram usados como dinheiro, e a explicação é puramente econômica como você verá abaixo!

Como o Dinheiro Surgiu

Assim que o ser humano deixou de ser nômade e começou a se fixar nas primeiras povoações, a troca de itens e serviços entre os membros dessas povoações se fez necessária por conta da distribuição não uniforme de recursos naturais e também por conta das diferentes habilidades inatas de cada membro. Por exemplo, pode ser que a terra da sua residência seja mais propícia a plantação de batatas enquanto a terra do seu vizinho seja mais propícia a plantação de maçãs. Uma certa pessoa pode ser mais forte, se adaptando melhor ao trabalho de ferreiro, enquanto a outra é mais habilidosa para a confecção de roupas

Além disso, logo se observou o enorme ganho de eficiência gerado quando  cada membro do grupo se especializa na execução de um certo serviço ou coleta de algum item. Por exemplo, em vez de ter que construir a sua própria casa, criar suas próprias galinhas, coletar suas próprias frutas, confeccionar suas próprias roupas e ferramentas de trabalho, seria muito mais fácil e eficiente se você se especializasse em somente uma dessas tarefas, como criação de galinhas, e as trocasse por outros itens e serviços, que seriam especialidades de outros membros do grupo.

Para ilustrar o ganho de eficiência consequente da especialização de tarefas, vamos utilizar um exemplo simples, onde existam somente duas pessoas e somente dois itens a serem coletados e/ou produzidos: comida e água. Suponha que, se a pessoa coletar os dois itens sozinha, ela consiga gerar por dia duas unidades de comida e duas de água. Por outro lado, se ela focar e se especializar em somente um item, ela consegue coletar seis unidades desse item por dia. No primeiro caso, em que não existe especialização nem troca entre os dois membros do grupo, cada um teria, por dia, duas unidades de água e duas de comida. Já no segundo caso, em que cada um decide se especializar na coleta de um item e depois trocar com o outro, cada membro iria coletar seis unidades do item no qual ele é especializado e trocar três unidades com o outro membro, acabando o dia com três unidades de comida e três de água, obtendo um ganho de 50% em relação ao caso anterior.

A explicação do ganho de produtividade por conta dessa especialização também é clara e intuitiva: quando você foca em uma certa tarefa e se especializa nela, você ganha mais prática ao longo do tempo e vai descobrindo maneiras mais eficientes de executá-la.

As Limitações do Escambo

Escambo é o comércio baseado em trocas. Por exemplo, eu crio galinhas e troco uma delas com você, que cultiva maçãs. A ideia é simples, e à primeira vista pode parecer eficiente, mas não é. Imagine uma cidade onde a única forma de comércio é o escambo. Suponha que você é um criador de galinhas, mas a sua mesa quebrou e você está precisando consertá-la ou comprar uma nova. Você então vai até o carpinteiro e pergunta se ele está interessado em aceitar algumas de suas galinhas em troca do conserto de sua mesa, e ele diz que não. Ao perguntar o que ele aceitaria em troca pelo conserto da mesa, ele diz que gosta muito de morangos. Você então vai até o produtor de morangos e pergunta se ele trocaria seus produtos por galinhas. Ele diz que não aceita, pois recentemente já havia adquirido algumas galinhas. No entanto, ele afirma que está precisando que alguém conserte o telhado de sua casa. Finalmente, após conversar com a pessoa que conserta telhados, você consegue dar para ela algumas galinhas, em troca do conserto do telhado do produtor, com isso obtendo alguns morangos, que você consegue, por fim, utilizar para trocar pelo conserto de sua mesa com o carpinteiro.

A ineficiência do processo fica clara. É justamente por causa dessa ineficiência que o escambo, ao contrário do que muitas pessoas pensam, foi usado por pouco tempo e em poucas civilizações. O dinheiro então surgiu para resolver esse problema e facilitar as trocas de produtos, bens e serviços entre as pessoas.

As 3 Características Fundamentais do Dinheiro

O dinheiro pode ser considerado um dos maiores avanços para o ser humano. Curiosamente ele não foi inventado por uma pessoa ou um grupo de pessoas, mas surgiu espontaneamente.

Conforme as pessoas observavam a ineficiência do escambo, elas começavam a buscar itens que fossem aceitos pelo maior número de pessoas possível e que, ao mesmo tempo, não estragassem rapidamente. Suponha que você seja um produtor de morangos em uma civilização antiga. Seria de seu interesse trocar esses morangos, que estragam em questão de dias ou semanas, por algum item menos perecível e que fosse do interesse de grande parte das pessoas na sua cidade, como por exemplo,sal.

  1. A primeira característica necessária para um item poder ser usado como dinheiro é que ele funcione como um meio eficiente de troca. Ou seja, que seja aceito em troca de outros bens e serviços por grande parte da população. Anteriormente já foi explicado por que essa característica é importante. 
  2. A segunda característica é que ele mantenha seu valor ao longo do tempo. Dois fatores contribuem para a manutenção desse valor. O primeiro é o item não ser perecível como acabamos de ilustrar. O segundo é o item ser relativamente raro ou difícil de ser coletado. No exemplo acima, se você tivesse trocado todos os seus morangos por sal, e no dia seguinte alguém descobrisse um local com toneladas de sal facilmente acessível, o valor de sua reserva de sal  cairia drasticamente. 
  3. A terceira característica para que um item possa funcionar como dinheiro é ter facilidade de medição e fracionamento, justamente porque ele precisa ser usado para trocas no cotidiano. Armas tendem a ser mercadorias de aceitação geral na troca e também não são perecíveis, porém dificilmente serão usadas como dinheiro , pois é impossível fracionar uma arma em partes menores sem quebrá-la, inviabilizando a troca por itens de menor valor. 

Gados, sal, açúcar, milho, pele de animais, conchas, bronze, prata e ouro. Esses itens formam uma lista dos que possuem as três características descritas e que já foram usados como dinheiro ao longo da história e em diferentes civilizações.

Espero que você nunca seja preso, mas se for, tenho certeza de que se lembrará das três características necessárias para que uma mercadoria funcione como dinheiro, quando se deparar com maços de cigarros sendo trocados para cá e para lá por outros itens e serviços.

O Dinheiro Possibilitou o Ato de Poupar

Poupar significa produzir mais do que você consome e guardar o excedente. Pode não parecer à primeira vista, mas a possibilidade de poupar ou de se criar uma poupança é extremamente importante para aumentar a qualidade de vida das pessoas. A poupança também permite o aumento da produtividade da sociedade como um todo e, consequentemente, do seu avanço ao longo dos anos.

Vamos pensar de novo no exemplo de produtor de morangos. Nesse caso, o ato de poupar aconteceria caso sua produção de morangos fosse suficiente para trocar por produtos e serviços para sua subsistência e ainda sobrasse um pouco. Como os morangos estragam em questão de dias, seria necessário trocá-los por algum item que funcionasse como dinheiro nessa sociedade, para que o valor dessa poupança fosse mantido ao longo do tempo. Por exemplo, o produtor poderia trocar seus morangos excedentes por castanhas, que são de aceitação geral em sua sociedade e não estragam por meses.

O ato de poupar aumenta nossa qualidade de vida por oferecer uma proteção contra mudanças na capacidade de produção de uma pessoa. A proteção se dá em relação a mudanças voluntárias (como no caso de sair de férias ou tirar um ano sabático) e, também, mudanças externas e inevitáveis (como eventos climáticos, doenças ou a velhice).

Sem ter uma poupança, por exemplo, se o produtor de morangos ficasse doente e acamado por três meses, ele iria morrer de fome ou depender da boa vontade de terceiros para continuar comendo e tendo acesso aos produtos e serviços básicos para sua subsistência.

Da mesma forma, se um pedreiro não pudesse poupar e planejar sua aposentadoria, ao envelhecer e perder o vigor e a capacidade de produção, inevitavelmente ele teria que reduzir o seu padrão de vida e possivelmente até ficaria impossibilitado de prover a si mesmo.

O segundo papel fundamental da poupança em uma sociedade é permitir que pessoas que estão produzindo mais do que consomem possam emprestar esse excedente a outras pessoas ou grupos de pessoas que possam fazer um uso mais eficiente desses recursos. 

Por exemplo, o produtor de morangos poderia emprestar parte de sua poupança de castanhas para um conhecido que esteja planejando começar um negócio de criação de galinhas. Caso o negócio prospere, o novo criador de galinhas conseguirá devolver ao produtor de morangos o que lhe foi emprestado e mais um pouco. Esse investimento acaba sendo bom para todos os envolvidos: o produtor de morangos aumenta a sua poupança ao longo do tempo sem precisar trabalhar diretamente nesse processo; o criador de galinhas consegue começar um novo negócio sem ter os recursos necessários, contribuindo somente com o seu trabalho; e a sociedade como um todo também ganha, pois agora conta com um novo produtor de galinhas e com ainda mais dinheiro disponível para outros investimentos do produtor de morangos.

A poupança também aumenta a qualidade de vida das pessoas, ao permitir que elas comprem itens mais caros do que o valor que conseguiriam acumular em uma semana ou em um mês. Por exemplo, o produtor de morangos jamais conseguiria trocar diretamente seus produtos por uma casa, a não ser que o vendedor aceitasse receber parcelado e em morangos ao longo de décadas. Em vez disso, o produtor de morangos pode ir poupando o excedente de sua produção e uma vez que tiver o montante adequado, ele realiza a compra da casa.

Similar aos exemplos acima, mas ainda mais importante, é o caso em que muitas pessoas juntam suas poupanças para possibilitar a criação de uma grande empresa, indústria, projeto de pesquisa ou construção. Todo o avanço tecnológico e infraestrutural vindo desses projetos depende da poupança dos cidadãos de uma sociedade, a qual, por sua vez, depende da existência de alguma forma de dinheiro.

 

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